A janela está aberta. A mesa está posta. As minhas curtas pernas não me permitem chegar ao chão, por isso, sentada no velho sofá castanho, balanço-as inocentemente, enquanto brinco com um pequeno carro vermelho. O meu vestido é azul com flores amarelas, idênticas às que costumavam estar no teu jardim antes de eu, traquina, as arrancar. Inalo impacientemente o aroma dos teus bolinhos de limão. Que bem me sabiam. Costumavas ralhar comigo por os comer tão depressa. Agora, todo o aroma desapareceu. O meu vestido azul com flores amarelas está velho e gasto, tal como eu. Ardem-me os olhos, tão vazios quanto o vazio que me circunda e enche. Um vazio que enche até à exaustão, e que pesa, que pesa tanto. Podia escrever sobre ti, sobre os teus longos cabelos cinzentos, mas os meus lábios estão feridos e a janela já não mais se abre.
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