Desci as escadas do prédio lentamente. Os meus passos ecoavam pelo quarto andar, tanto que tive medo de acordar os vizinhos. Tinha a mão direita bem aconchegada no bolso do casaco vermelho que trazia nesse dia. A mão esquerda, essa, agarrava o corrimão de ferro sujo e desgastado, de forma a suster o meu corpo cansado. As paredes do prédio sempre tinham sido pouco bonitas. Porém, nessa manhã, pareciam-me especialmente feias e repulsivas. Eram de um verde seco misturando com um branco que, com o passar do tempo, tinha adquirido uma tonalidade amarela. Só me lembro de me sentir presa numa caixa que parecia comprimir-me cada vez mais. Ainda assim, continuei a caminhar ao mesmo ritmo, observando aquelas quatro paredes velhas e desgastadas. No fundo não passavam disso. Quatro paredes velhas e desgastadas. Tive pena delas. Pobres coitadas, confinadas a tal condição indesejável.
Cheguei finalmente à porta de entrada, que, no meu caso, era a porta de saída. Lá fora o céu encontrava-se carregado de nuvens, que se começavam já dissipar, como se uma tempestade tivesse cessado. Assim que pisei o passeio senti as bochechas a corarem devido ao frio. Conseguia sentir o aroma da chuva, e das árvores caíam grossas gotas, como se lágrimas fossem derramadas por um bem perdido. Os meus cabelos cor de mel dançavam com o vento. Protegi bem as duas mãos nos bolsos e, durante um mero segundo, que me pareceu mais do que uma vida, pude ter, por fim, uma única certeza. Não era, de facto, a pessoa mais feliz do mundo, nem a mais especial e muito menos a com mais sorte. Porém, teria sempre Paris. Disso tinha certeza.
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